domingo, 24 de julho de 2016

O Caminho da Resiliência

Créditos: Nyctimene (http://nyctimene.deviantart.com/art/The-Phoenix-Project-Egyptian-Bennu-Bird-555321504)

Pulava de galho em galho, tentando fugir de seus perseguidores. Olhava para trás, o suor descendo pela testa, prontamente transformando-se em vapor, misturando-se ao rastro de poeira que deixava. Tentava agitar aquelas asas desengonçadas, as minúsculas patas apalpando os nódulos das árvores, afim de ganhar distância e uma janela pra refresco. “Já estou longe”, Simurg pensou, julgando ser um bom momento para uma pausa sobre uma antiga tamareira.
O descanso durou poucos segundos, a tamareira não foi capaz de suportar o peso de Simurg e rachou, fazendo suas patas quase tocarem a areia desértica. Em imensa agonia, conseguiu prender o bico a outra tamareira próxima, o suficiente para ganhar impulso em direção ao céu. Atingiu poucos centímetros de altura antes de sentir um puxão forte nas caudas, a esperança minguando naquele segundo.Viu, desolado, a abóboda celeste  ficar cada vez mais distante, até sua imagem ficar recortada por frias barras metálicas. Tudo estava acabado, fora enjaulado.
No porão ao qual estava aprisionado pode rever toda aquela sequência maluca de acontecimentos. Pensou na sua infância, nos momentos vividos com seu meio-irmão Grypus, desde as confissões particulares até as aventuras em grupo. Por algum motivo que não conseguia entender, Grypus sempre vira Sigmur como um ser inferior, muito embora tenham sido criados no mesmo lar. Em parte, havia uma certa lógica na visão de Grypus, uma vez que Sigmur fora adotado pela família de Grypus quando ainda era uma pequena ave. Haviam tomado aquela atitude por pensarem que fosse um órfão de alguma família de Bennus ao redor, amargando a decepção quando o pequeno Sigmur crescera.
Claramente havia algo que diferenciava Sigmur de seus parentes e colegas. Os Bennus eram pássaros elegantes, com corpo similar ao dos flamingos, as penas semelhantes às de um pavão com tonalidade azulada em um lindo degradê que terminava na cabeça. Acima do bico, uma faixa preta recobria triangularmente os olhos, dando um aspecto feroz e intimidador àquelas magníficas criaturas.
Sigmur, por outro lado, era bem diferente. Quando pequeno, possuía características muito semelhantes aos seus meio-parentes, com a diferença de ter quatro caudas ao invés de uma única, e de seu  corpo ter uma coloração rosa salmonada, mais próxima de um flamingo do que de um Bennu. Fora alvo de brincadeiras maldosas por parte de seus semelhantes, especialmente seu irmão Grypus, cujo passatempo favorito na infância fora caçoar e mal-tratar Sigmur.
Mesmo recebendo esse tratamento, Sigmur era incrivelmente fiel ao seu meio-irmão e sua família adotiva, bem como seus semelhantes. Não era dos mais habilidosos, mas seu ímpeto, sua determinação em ajudar como pudesse e sua lealdade eram diferenciadas mesmo entre os Bennus, conferindo os principais traços da personalidade de Sigmur.
Não por acaso, agora percebia, ele estava naquela enrascada devido à sua lealdade ao meio-irmão. Havia executado o plano de Grypus à risca, mantendo as esperanças de que suas ações gerassem o retorno do fogo aos Bennus, mas fora atraído para uma arapuca. Antes que pudesse sequer se aproximar de seu objetivo, alcançar o fabuloso farol de Yggdrasil, considerado o berço do reino e restrito aos membros da família real, fora interceptado por enviados da guarda Bennu. Agora aprisionado e em solidão, Sigmur via a esperança esvair de seu coração com a aproximação de seu julgamento.
Seus piores pesadelos se confirmaram ao receber a sentença de Sua Alteza Bennu, estava permanentemente exilado. Relegado à se contentar com a própria sorte, Sigmur vagou indefinidamente pela imensidão do deserto. Desnutrido e desolado, andava sem rumo e sem prumo, buscando um novo motivo para sua existência. Por conta de seu caminhar descuidado, foi engolido por um buraco na areia, caindo na escuridão abaixo. Estranhou a sensação em suas patas, com certeza estava em momento de confusão mental, pois sentia galhos e folhas. Em um sopro de esperança, torceu as garras e conseguiu parar a queda-livre, permanecendo de ponta-cabeça enquanto a areia torrenciava túnel abaixo.
Quando olhou ao redor, o coração acelerou e o sangue começou a fluir velozmente. Não poderia ser verdade, estava sonhando, definitivamente. Não conseguia acreditar no que seus olhos revelavam, um misto de confusão, incerteza, medo e esperança rodeavam seu coração e mente.
À sua frente estava uma caverna imensa, o chão recoberto por árvores com troncos fortes e baixa estatura, as copas fazendo um lindo tapete verde-musgo no piso. As paredes eram de pedra bruta bem escuras, adornadas de imagens e pinturas incríveis. Mais inacreditável era o conteúdo destas imagens.
Sigmur observou a sequência de imagens à sua frente que descreviam claramente toda a vida de uma ave idêntica à Sigmur. Não era um Bennu típico, pois tinha a coloração rosada de Sigmur, a baixa estatura, e a cauda dividida em quatro pontas. Sigmur viu aquilo que assumiu como um parente sair de uma nuvem de poeira, empoleirado nas árvores, e transportando muitos objetos de uma única vez, algo que espantou Sigmur (achava que era muito fraco, embora fosse um dos encarregados no transporte de mantimentos para os Bennus).
As duas imagens ao fim assustaram Sigmur. Na primeira estava seu semelhante à frente do farol de Yggdrasil com a cabeça sobre o farolete, mas não conseguia distinguir exatamente o que ele fazia. Na imagem seguinte, o farol estava aceso e seu semelhante novamente envolto em poeira. Sigmur observou algumas ranhuras na lateral da última ilustração e agitou as asas para poder limpar a grossa camada de poeira. Se impressionou ao perceber que era a seguinte frase: “A felicidade está em cada uma das suas ações, e pode ser encontrada nas horas mais escuras. Para isso, basta lembrar de acender uma luz.”
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          No saguão principal do palácio real encontravam-se Grypus e seus asseclas, que ocupavam-se com um fabuloso banquete. A comemoração tinha por mérito a tomada do controle das pirâmides reais e dos campos de plantio, um golpe engenhoso tramado pelo próprio Grypus (usara a escuridão para movimentar suas tropas e tomar o palácio de assalto). Sem a dádiva do fogo iluminando o farol, o poder real (que emanava da luz e do calor) estava para ser extinto. Grypus aproveitara o momento de fraqueza e tomara o controle do reino, garantindo amplos poderes à si e seus seguidores. O reino estava mergulhado no medo e na falta de esperança, sem vislumbrar uma saída para aquela situação calamitosa.
         Neste momento de desespero, Anka, uma pequena Bennu, mirou o céu orando por um milagre. Qual não foi sua surpresa ao avistar uma luz avermelhada no horizonte obscuro, que foi se tornando cada vez mais intensa até se transformar em uma ave impetuosa jamais vista por Anka. Suas patas eram mais curtas do que as de um Bennu, tinha penugem de águia com tonalidade vermelho-dourada e quatro caudas alongadas. Todo seu corpo estava envolto em  chamas ardentes.
        A criatura majestosa se empoleirou na tamareira mais próxima, suas chamas diminuíram de intensidade, de modo que Anka pode contemplar seu rosto. Não conseguia acreditar no que via, não era possível! Era Sigmur, mas estava muito diferente do Sigmur que conhecia. Estava, se é que isso era possível, mais intenso, mais impetuoso, mais vivo.
        Sigmur acenou para a pequena Bennu, abriu suas magníficas asas e decolou em direção ao farol de Yggdrasil. Anka observou Sigmur se empoleirar no topo do farol, mas não conseguiu ver o que fazia lá. Quando Sigmur se afastou, uma chama vibrante saia da ponta do farol, cobrindo o palácio, as pirâmides e o reino com uma luz resplandecente. Anka também viu, em completo espanto, quando Sigmur entrou no palácio real e, pouco depois, retornou acompanhado dos aliados de Grypus, que carregavam seu líder amarrado e amordaçado. Mas o momento de maior incredulidade veio quando, em uma demonstração inigualável de valor, Sigmur perdoou Grypus e libertou-o, com autorização do poder real.
        Em uma reviravolta inacreditável, Sigmur havia reacendido a chama da esperança no reino ao mesmo tempo em que conquistara a confiança de seus antigos perseguidores e algozes. Grypus se aproximou de Sigmur, o embaraço e a culpa estampados na face, olhando o irmão com orgulho. Finalmente, declarou com voz embargada:

        “Agora posso perceber meu maior erro, querido irmão. Finalmente vejo que as circunstâncias do nascimento de um ser são irrelevantes. Pouco importa onde, como ou de que forma se entra neste misterioso mundo. Por outro lado, o que escolhemos fazer com o dom da vida determina quem somos de fato."